As possibilidades de uma visão digital*

A arquitetura por detrás dos filmes de ficção científica

Metropolis-1927-Fritz-Lang.jpg

 

A tecnologia tem sido utilizada para nos ajudar a sonhar, comunicar e construir.

Tanto o cinema como a arquitetura funcionam ambos como linguagens distintas que se comunicam através de uma biblioteca de sinais. Esses sinais podem ser divididos em duas partes, os significantes, que são os estados físicos dos sinais, e os significados, que são os pensamentos, ideias e noções do que os significantes encarnam.

A arquitetura é usada como uma ferramenta de comunicação através da qual diretores e cineastas enviam certas mensagens. A arquitetura confere ao cinema credibilidade; definindo o humor, personagem, hora e local para a acção.

A arquitetura desempenha um papel importante como bom significante, significando diferentes aspectos da sociedade (económica, política, sociológica, ecológica, tecnológica, etc.).

O cinema proporciona liberdade à arquitetura com uma forma para representar visões e experiências que na realidade nunca poderiam existir. Recorrendo ao cinema como medium, os arquitetos podem criar uma arquitetura “pura”, sem se preocuparem com coisas como impermeabilização, negociação de contratos ou códigos de construção. A “cinemarquitetura” é, portanto, um cumprimento ideal do que a arquitetura pode ser.

Na vida profissional, a arquitetura nem sempre pode atuar como um espelho real para a sociedade ou o contexto, devido ao envolvimento de diferentes fatores no processo de construção e concepção (financeiro, político, ecológico, tecnológico, etc.). Às vezes, esses fatores prejudicam a mensagem a ser enviada ao visualizador ou ao usuário do trabalho arquitetónico, resultando num mal-entendido nos motivos e significados desse trabalho arquitetónico. No cinema, esse mal-entendido raramente acontece. A arquitetura em filmes pode ser descrita como arquitetura pura, já que não é delimitada por nenhuma restrição, significa exatamente as visões do diretor e envia mensagens exatas e definidas ao visualizador através de suas expressões. Na arquitetura cinematográfica, o motivo coincide com o significado.

Não importa como uma cidade é retratada na ficção científica, sempre faz mais do que simplesmente a cena, ela depende de uma audiência que acredita nos mundos que são apresentados.

Arquitetos e designers geralmente vivenciam os filmes de uma forma um pouco diferentes do que o vasto público, especialmente quando se trata do género de ficção científica com edifícios, cidades ou paisagens urbanas que são “fora deste mundo”; Eles vêem os edifícios em segundo plano (ou primeiro plano em alguns casos) e começam a analisar como é que eles foram projetados. Alguns filmes de ficção científica ou programas de televisão sugeriram tecnologias que inspiraram gerações de cientistas a pesquisá-las e desenvolvê-las. Noutros casos, as imagens de edifícios e cidades imaginadas cerca de 30 ou 40 anos atrás, prevendo o futuro, têm uma semelhança impressionante com alguns ambientes urbanos atuais; também há filmes com visões radicalmente diferentes do que temos hoje. A ficção científica pode às vezes servir de aviso, mas muitas vezes o suficiente pode ser uma fonte de inspiração. Vários filmes adquiriram um status de culto, não só na cultura popular, mas também na comunidade científica, tornando as suas imagens quase icónicas, referenciadas por muitos arquitetos, teóricos e pesquisadores. Alguns filmes inspiraram-se em vários estudos arquitetónicos ou modelos de utopia, em obras de vanguarda ou de concursos.

A primeira coisa que vem à mente quando a ciência-ficção é mencionada é o futuro, os avanços futuros na tecnologia, uma sociedade futura desenvolvida a partir de paradigmas actuais. Normalmente, o futuro é retratado de tal forma que faz uma declaração sobre as questões actuais em relação à sociedade, meio ambiente, política, economia e religião ou questiona o progresso em vários campos da ciência.

O alvorecer do cinema coincidiu com o surgimento da cidade moderna como um farol de esperança. No momento em que o cinema de ficção científica se aproximou da ideia da cidade como a esperança do futuro, os cineastas também viram nela uma metáfora para os males sociais.

O surgimento da tecnologias de animação significa que agora existem uma série de alternativas digitais disponíveis para designers de produção para a criação de mundos fictícios – o que se esperaria que viesse reduzir a dependência de estruturas tangíveis no cinema. Embora este seja o caminho, continuamos a ver a prevalência da arquitetura moderna nos filmes de ficção científica contemporâneos.

* Este artigo foi originalmente publicado na revista online Wall Street International Magazine [08/03/2017]

Imagem: «Metrópolis» (1927), Fritz Lang

[English version]

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