Sobre o Ensino da Arquitetura*

À conversa com Haris Piplas, ETH Zurich

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Haris Piplas, nascido em Sarajevo, é arquiteto paisagista, urbanista e investigador. Estudou e trabalhou em Sarajevo, Berlim, Dinamarca, Milão e Zurique.

Faz parte do Urban-Think Tank da ETH Zurich desde 2011. Trabalha no desenvolvimento de modelos inovadores de pesquisa e ensino, em colaboração com parceiros académicos, da indústria e da política, incluindo a Urban Stories Urban Toolbox com casos de estudo de cidades de todo o mundo. Lidera as atividades do projeto Urban-Think Tank sobre transformações urbanas em cidades da Europa Central e Oriental com foco no caso de estudo Reactive Sarajevo.

Foi curador do pavilhão “Sarajevo Now: People’s Museum” na Bienal de Arquitetura de Veneza em 2016 pela ETH Zurich Urban-Think Tank, comissariado pela Matica B&H. Haris atua no Urban Land Institute, Fundação Aga Khan, ISOCARP, Matica B&H e no Fórum Europeu Alpbach..

O teu currículo é muito peculiar: professor da ETH de Zurique, parte do Urban-Think Tank e, mais recentemente, curador do pavilhão de Sarajevo para a Bienal de Arquitetura em Veneza, em 2016. Como é que tudo isso se conjuga?

O maior problema da arquitetura hoje é que o ensino, a pesquisa e a prática estão fragmentados. Muitos de nós tentamos liga-las, mas acabamos por ter três vidas profissionais diferentes: um professor, um arquiteto e um pesquisador – mas como relacioná-los?

Todos sabemos que as cidades são a maior invenção humana. Quando as pessoas começaram a mudar-se para as cidades, a civilização humana começou a florescer, porque diferentes pessoas, opiniões, habilidades, conhecimentos, poder político e cultura, densificaram-se. Mas neste século, quando olhamos para a nossa sociedade de hoje: mudanças climáticas, crise económica, as cidades são também o nosso maior catalisador e problema. Mas como lidar com isso? Há uma profissão chamada urbanismo e arquitetura e deve lidar com isso. Mas na realidade não funciona assim. Se olhar-mos para quem realmente projeta e constrói cidades, são imobiliárias, políticos e burocracia. Os urbanistas muitas vezes não estão envolvidos, ou são secundários e terciários, depois da política e da economia fazerem a sua parte. Mas não devemos culpar os outros.

Quando eu ainda era estudante, fui a uma conferência sobre imóveis e cidades inteligentes e conheci os profissionais que são os maiores tomadores de decisões dentro dos processos de desenvolvimento urbano. No início pensava que estava a estudar para estar no fim da cadeia alimentar como um urbanista, mas depois reparei que não é que não sejamos ouvidos, simplesmente não participamos nos processos onde as decisões são tomadas.

Quando terminei os estudos e reuni alguma experiência profissional, comecei a procurar um sítio onde eu pudesse trazer a minha história e o meu conhecimento e estar num lugar onde as coisas realmente estão a acontecer. Foi quando descobri o Urban-Think Tank e conheci os meus mentores Hubert Klumpner e Alfredo Brillembourg. É um sítio muito dinâmico para se trabalhar. Os seus métodos e experiências para lidar com cidades com problemas políticos, conflitos e problemas ecológicos, é semelhante à minha própria experiência.

Eu cresci em Sarajevo, no socialismo, e quando a guerra começou esta cidade idílica foi destruída. Sarajevo é uma mistura histórica de culturas e a arquitetura era também muito diversificada. Como a cidade simbolizava a coexistência, a paz e o multiculturalismo, tornou-se alvo da destruição. A fim de destruir este conceito de unidade, começaram a destruir a cidade. O que aconteceu em Sarajevo foi genocídio e “urbicídio” – o assassinato da cidade.

Quando se é criança, uma guerra obriga-te a crescer muito rápido. Quando a guerra terminou, de uma forma muito ingénua, eu queria fazer alguma coisa para ajudar e uma vez que toda a gente estava a escolher economia e eu não era o melhor amigo dos números, pensei em estudar arquitetura, paisagem e urbanismo, e que desta forma eu poderia ajudar a reconstruir a cidade.

Quando abordei Hubert e Alfredo propondo que queria fazer o mesmo que fizeram na América Latina, em Sarajevo, eles olharam para mim e Alfredo disse “Ou estás louco ou sabes do que estás a falar”. Foi com essa loucura e ingenuidade positivas que começámos a envolver-nos na região pós-socialista, não só em Sarajevo, mas também na Sérvia, Ucrânia, Eslováquia, Albânia, Kosovo, Macedônia, etc. Claro que aprendemos com as experiências dos estudos de caso urbanos da Suíça, das Américas, da China, do Sudeste Asiático, etc.

A exposição na Bienal de Veneza foi a oportunidade perfeita para mostrar ao mundo o que fizemos preliminarmente. Bósnia e Sarajevo nunca tiveram um pavilhão desde que se tornaram independentes em 1992. E ninguém nos convidou para organizar um pavilhão, encomendado pela organização cultural da Bósnia da Suíça, Matica, com o apoio do Presidente da Câmara de Sarajevo, da Secretaria Suíça de Economia, da Embaixada da Suíça em Sarajevo e muitos colegas, amigos, estudantes e jovens profissionais de mais de 15 países. O pavilhão foi um ato coletivo e por muitas razões incomum, poderoso e uma mensagem para o mundo. Não só para ajudar Sarajevo, mas o que é que a Síria pode aprender com o nosso exemplo.

O Urban-Think Tank é um grupo de especialistas, com diferentes origens que pretendem trabalhar em conjunto para uma pesquisa coletiva. Com base na tua experiência como professor, achas que a academia está a mudar neste sentido, e o curso de arquitetura está a ir de encontro a essa ideia de trabalhar em conjunto, e menos individualista?

Todas essas abordagens interdisciplinares de que muito se fala, é o que fazemos no Urban-Think Tank.Somos um coletivo capaz de transformar cidades. Nós não nos senta-mos e trabalhamos num determinado projeto. Nós trabalhamos com a sociedade. Não se pode esperar, devemos inventar o nosso próprio projeto. Nós inventámos o nosso projeto para Sarajevo. Resultou de muita pesquisa, discussão, reuniões, frustração e comunicação. E é assim que as coisas devem ser: envolverem-se com a sociedade e trazer toda a base de conhecimento necessária.

É neste sentido que a minha própria história pessoal e visão se fundem com o Urban-Think Tank: comunicação, design e trabalhar com diferentes pessoas e origens. Acabou-se o tempo do arquiteto solitário no atelier. Os projetos são um ato coletivo com milhões de interesses e contributos. Muitos falam sobre as cidades e que temos de mudar, mas muitos não sabem como. Os problemas estão apenas a crescer e há cada vez mais maquetes, renders e imagens, mas os problemas não estão a diminuir.

A nossa geração, os mais jovens, já compreendem que somos cidadãos globais. Com um smartphone tornamo-nos automaticamente cidadãos globais, há dez anos atrás não tínhamos eta ferramenta. O mundo está globalizado, vamos ser realistas, e a arquitetura e o urbanismo podem ser a solução para os problemas mais importantes da sociedade: mudanças climáticas, poluição, tráfego, etc.

Da tua experiência na academia, achas que os alunos ainda estão muito distantes da realidade? Ou isso é uma coisa do passado?

Muitas vezes eles estão. Os arquitetos gostam de ler, viajar … e os nossos alunos também. Nós tentamos dizer-lhes que eles têm que se conectar: o que é que eles vêm quando viajam? O que podem trazer? Como podem aprender com isso? O que observaram? Como é que as pessoas se movem na cidade? Como é que a arquitetura foi destruída? E construída? Etc. Esta verificação da realidade é muito importante, em vez de se limitarem a trabalharem sozinhos noites inteira em modelos.

Mesmo enquanto estudante têm que se envolver, porque é urgente lidar com a realidade o mais cedo possível. Isto é o que fazemos com os alunos do Urban-Think Tank na ETH em Zurique: eles envolvem-se. Arquitetura é um processo que exige passar por muitos problemas diferentes. Nós interligamos a pesquisa com o ensino, envolvendo os alunos para que eles possam dar os seus contributos.

Tem havido imensas discussões sobre a forma como temos ensinado arquitetura e em escolas de arquitetura alternativas. A ETH Zurique posiciona-se como uma dessas “escolas alternativas”?

Já li muitas discussões provocadoras sobre este assunto. Mas não é preto ou branco. Primeiro, tudo é sobre as pessoas. A ETH é uma escola pública e técnica, com um ranking alto. Quando eu leio sobre a “escola alternativa” é sempre um caso de uma escola pequena. Temos de adaptar o que fazemos às necessidades da sociedade. Mas eu não acho que devemos abandonar o velho conceito de escola e fechar as escolas existentes.

A ETH tenta constantemente trazer novas experiências para o ensino. Acredito que a nossa abordagem de Urban-Think Tank foi uma declaração clara sobre inovação, novas formas de pensar sobre arquitetura e urbanismo, sobre ensino e pesquisa, etc.

A palavra “alternativa” diz-nos que há outra coisa. Alternativa para o quê? Nesse sentido, e se eu quisesse ser muito provocador, classificá-lo-ia de duas maneiras: os que estão apaixonados por si mesmos e os que são realistas e interessados em envolver a sociedade.

Como professor, tens algum conselho geral para os alunos que agora estão a começar a estudar arquitetura?

Sai, conversa com outras pessoas, torna a tua opinião relevante (porque é relevante) e envolve-te. As cidades são o maior problema e as pessoas sabem como mudar as cidades, como parar as mudanças climáticas, como parar a segregação, etc. É preciso ajudá-las.

Os arquitetos são pessoas orgulhosas, porque nós vendemos o nosso conceito e não gostamos de ser criticados. Devemos ser mais realistas e guardar esse orgulho artístico. Quando nos fechamos no atelier, é um desastre, e quando saímos para o mundo estamos longe da realidade. É essencial manterem-se ativos e curiosos. Comunicar aquilo que fazemos à sociedade é essencial. Caso contrário, estamos a perder o nosso tempo.

Quais achas que são as principais mudanças no percurso dos alunos devido à proliferação de ferramentas digitais contemporâneas nas aulas?

As ferramentas digitais são ferramentas. Ferramentas estão a mudar e a evoluírem muito rápido, ontem era um martelo e hoje é outra coisa. As tecnologias digitais ajudam a globalizar o planeta. Elas podem-nos ajudar a alcançar e comunicar melhor as nossas ideias.

Estou completamente de acordo com esta noção de que finalmente temos o conhecimento global no telefone e temos tantas possibilidades que anteriormente precisávamos de anos para ler livros, mas agora está tudo lá e os arquitetos devem utilizar esta oportunidade. Mas não no sentido de se tornar um escravo destas ferramentas. Deve-se fazer uso das ferramentas de uma forma inteligente, não apenas software 3D, mas ferramentas simples para comunicar as ideias. É uma oportunidade para que num curto espaço de tempo a nossa opinião seja visível. E mais uma vez, tudo é sobre a comunicação. Utilizem as ferramentas, mas não se esqueçam qual era a tarefa principal.

Como Jan Gehl disse “as cidades são feitas para carros, não para as pessoas” é o argumento mais simples que eu já ouvi, mas também é uma grande verdade.

Façamos deste belo e único momento na história da humanidade que temos todos os conhecimentos disponíveis.

A tecnologia está a revolucionar e a democratizar o conhecimento. Está a trazer-nos para mais perto da sociedade, as notícias surgem rapidamente e criam-se novas maneiras de nos envolvermos. Talvez agora também tenhamos de nos expressar de uma maneira diferente.

Quando era criança, na guerra e no pós-guerra em Sarajevo, a tecnologia ajudou-me a compreender o que estava a acontecer no mundo e de formas é que eu poderia envolver-me. Naquele momento ajudou-me a perceber quem eu sou, o que eu queria mudar e a comunicar com outras pessoas de outros países.

Algum pensamento final que gostasses de partilhar?

A minha mensagem baseia-se na minha experiência porque, quando era criança, fui submetido à guerra e estou feliz em poder partilhá-la com as pessoas que tiveram sorte de não passar pelo mesmo, com as pessoas da Síria e também com as pessoas da Suíça. E mais uma vez, eu penso que destas circunstâncias extremas podemos aprender muito! De várias formas, o que aconteceu em Sarajevo está ligado ao que está a acontecer em todo o mundo atualmente.

Aos alunos, posso dizer: escolham o mentor certo, envolvam-se com a sociedade e usem as ferramentas digitais de uma forma inteligente. Isto irá ajudá-los a serem realistas e úteis para a sociedade. Os intelectuais devem ser construtivos para a sociedade e não para o seu próprio ego.

Para mais informações sobre Reactive Sarajevo, veja aqui

* Este artigo foi originalmente publicado na revista online Wall Street International Magazine [08/05/2017]

Imagem: Discussões sobre modernismo jugoslavo com Rem Koolhas. Fotografia de Marine Drezet
[English version: http://wsimag.com/architecture-and-design/25619-teaching-researching-and-practicing%5D

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